Comunicações Unificadas e o Mito da Caverna

Trabalho com a área de Telecomunicações já faz algum tempo e entenda-me, digo isso não com objetivo de parecer velho, afinal tenho apenas 37 anos, meu objetivo é descrever de forma breve algumas transformações e evoluções que eu vivenciei nesta área.

Comecei na área de Telecom na Telesp como estagiário, na época que ainda era necessário passar no concurso. E como é peculiar nas empresas de grande porte, utilizar estagiários como mão de obra barata para serviços “pouco nobres” tomei posse da nobre função: Auxiliar de Cabista, sendo que uma das minhas primeiras atribuições era limpar o zinabre dos relés das centrais Crossbar no subsolo do OW203 em Campo Belo.

Quando recebemos a primeira central CPA na nossa regional, me lembro bem da impressão HighTech que tivemos. A central foi instalada num espaço que parecia um aquário, com ar condicionado, parede de vidro e entrada controlada apenas para técnicos com experiência, eu via curioso as pessoas entrando de avental e meia sobre os sapatos para conectar os computadores na console de gestão do equipamento. Confesso que o aspecto que mais me chamou a atenção foi a redução no espaço físico necessário para a central, com a tecnologia antiga precisávamos do subsolo inteiro para entregar 1.000 linhas de assinantes uma CPA facilmente integrava 10.000 linhas com 1 /100 de espaço.

De lá pra cá muita coisa mudou no mercado de telefonia, talvez a principal mudança tenha sido a “morte” da telefonia corporativa (TDM), com muita tristeza vi a Siemens, Ericsson, Nortel e outras gigantes do mercado de Telecom acabarem com suas divisões de telefonia corporativa. Sucumbiram perante a ascensão do celular e principalmente da gigante de networking Cisco e os seus telefones IPs. Acredito que a Avaya seja a única empresa de Telecom de verdade que tenha sobrevivido, embora há boatos quanto a sua venda ou falência.

Na década de 90, com a expansão da Internet, o telefone deixou de ser o principal meio de comunicação e surgiram outras possibilidades, como e-mails, mensagens e chats, que foram amplamente difundidos. Mas de fato nos anos 2000 é que estourou a telefonia IP com seus efeitos benéficos na redução de custos de cabeamento, diversidade de terminais e novas e incríveis funcionalidades.

Atualmente vemos a mudança de comportamento também motivada pelo uso de ferramentas das Comunicações Unificadas (UC do inglês Unified Communications), onde o ramal telefônico (hardphone) perde relevância para o software de telefonia embarcado nos computadores pessoais, smartphones etc.

Nunca ouviu falar sobre Comunicações Unificadas?

As Comunicações Unificadas ou UC é um conceito que integra as seguintes possibilidades de comunicação; o telefone fixo, celulares, videoconferências, e-mail e softphones, compartilhamento de conteúdo entre outros.  Um exemplo simples de ferramenta de UC é o Skype da Microsoft, nele é possível realizar chamadas para a PSTN (rede pública de telefonia) vídeo chamadas entre usuários Skype e colaboração através de compartilhamento de conteúdo digital.

Um dos argumentos de venda das soluções das UC é o de potencializar a produtividade e colaboração dos usuários e diminuir os custos das empresas.

No quesito redução de custo o impacto realmente pode ser positivo, com o auxílio de áudio, vídeo conferências e compartilhamento de conteúdo é possível integrar os usuários em qualquer hora ou lugar, conferindo qualidade, acessibilidade e reduzindo custos com viagens e também ajudando a minimizar problemas de falta de comunicação.

Há aproximadamente 5 anos que as concorrentes deste mercado disparam seus “evangelistas” para tentar influenciar o mercado sobre a diferença que as UC podem fazer nas empresas. Recentemente fiz um benchmarking em algumas grandes empresas que adotaram esta tecnologia, empresas dos setores de; mídia, educação, eletrônicos e indústria. Além da redução do custo de viagens não consegui enxergar o benefício de negócio prometido, nada além da redução de custos sendo que os principais estão confinados na TI.

No meu benchmarking vi os principais concorrentes do momento (Cisco e Microsoft) e sinceramente não consegui enxergar muita diferença entre eles, basicamente diferenças de look and fell. O quero dizer com isso? Quem não é possível determinar que a baixa adoção das UC  é determinada pela má qualidade dos produtos. Mas é certo de que a Microsoft irá integrar o Skype ao Microsoft Lync e com esta fusão será muito difícil imaginar outro concorrente de UC.

Antes que alguém pergunte, sim nestas empresas foram feitas diversas iniciativas com objetivo de alavancar o uso das ferramentas de UC com comunicações através de painéis, e-mail vídeos, brindes etc.

Vi sim uma grande redução de TCO na troca de equipamentos legados e problemáticos pela infraestrutura de UC, mas não vi o usuário disposto a abrir mão do telefone fixo e do velho “jeitão” de fazer as coisas, a única exceção foi uma das empresas onde a adoção foi imposta pelo CEO na tentativa de dar um choque de gestão na cultura organizações e de gestão e diga-se de passagem, logo após a saída do CEO o número de solicitações de instalação de hardphones disparou.

Nestas empresas que fiz minha pesquisa há um comportamento parecido, apenas 20% do total de usuários realmente está disposto a fazer uso de UC e o resto simplesmente não adota a solução independente de qual for o fornecedor o que me leva a conclusão de que não há grande diferença entre os principais produtos de mercado. Me parece que estes usuários estão intrinsecamente presos a sua própria forma de trabalhar e sendo esta a única forma que os usuários conseguem enxergar/trabalhar, não aceitam mudar a sua forma de ver as coisas, igual aos prisioneiros na narrativa de Platão.

Pessoalmente eu acredito que a empresa do futuro será como a SAP (empresa alemã de software) diz: Aberta, integrada, conectada e apurando resultados em tempo real, mas parece que os profissionais (usuários) atuais do mercado não estão preparados ou interessados nisto.

Não seria justo terminar este post sem mencionar que as áreas (os 20%) que adotaram plenamente o uso de UC, e decidiram sair da caverna,  tiveram mudanças fantásticas e diversos ganhos em produtividade na forma de colaborar. Eu vivencio um ambiente de TI onde a condução de projetos é anywhere e anyplace e trás ganhos de produtividade acelerando processos de negócio que outrora eram mais demorados e burocráticos. Uma pena que atualmente essas melhorias estão confinadas a área de TI, que está mais preparada e disposta a entrar de cabeça neste “maravilhoso mundo novo”.

E no que tange a ser integrada e conectada as ferramentas de UC se propõe a ser os instrumentos para cooperar neste sentido. Talvez esta geração de usuários não esteja preparada para adotar estas ferramentas, seria este um problema de matéria prima?

Um exemplo para ilustrar o meu ponto de vista: Recentemente vi meu filho de 12 anos jogando Minecraft com os amigos dele pela internet, eles haviam criado uma VPN privada entre eles (via Hamachi) para colaborar “localmente” e estavam conversando via Skype e sempre que necessário alguém compartilhava a tela para conseguir ajudar (dar suporte) aos demais, uma cena perfeita de colaboração apoiada em ferramentas de UC. Talvez as gerações nascidas após ano 2000 sejam os usuários reais de UC que os evangelistas desta tecnologia anunciam.

Parafraseando o apóstolo Paulo na carta aos Romanos, “ficamos com as dificuldades, pois elas produzem perseverança e a perseverança, experiência e a experiência, esperança. Esperança de não frustrar-se com a baixa adesão de uma tecnologia tão poderosa quando as Comunicações Unificadas.

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1 Resultado

  1. Norberto Gomes disse:

    Trinta e poucos logo chega nos entas…ahahah…ja esta se deparando com a rigidez as mudanças…bem isto é nato do bicho homem( mulher também)…. Tem coisa nova por ai que vai aprimorar as soluções, o mercado tende para o home office, pois ao meu ver a qualidade de vida dos colaboradores será a chave do sucesso para as grandes corporações, Isto já é fato. Dai temos agora a rede Gpon com a solução Triple play, isto é o futuro meu caro.

    Ah ja ia esquecendo….não era meia no sapato e sim pantufas, igual nas salas de cirurgia…ahahahaha.

    N.G. Engenharia &Consultoria
    Elétrica & Telecom, & Edificações
    Projetos para soluções triple play , cabeamento convencional e óptico, home office.

    Eng.Norberto Gomes
    gomes.norberto@yahoo.com.br

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